Denise Leite Maia Monteiro
“A Semana Nacional de Prevenção à Gravidez na Adolescência é uma oportunidade para ampliar o diálogo com adolescentes, famílias, escolas e profissionais de saúde”.
Criada em 2019, a Semana Nacional de Prevenção à Gravidez na Adolescência, celebrada anualmente no início de fevereiro, surge como um marco importante nesse processo. Mais do que repetir mensagens genéricas, a iniciativa tem o objetivo de qualificar o debate, divulgar dados atualizados e estimular ações baseadas em evidências científicas.
Cenário da Gravidez na Adolescência no Brasil
Na década de 1990 a gravidez na adolescência só aumentava, culminando com o nascimento de 750.537 bebês de mães adolescentes no ano 2000. Ao longo do século XXI, observou-se queda expressiva nos índices de partos de adolescentes, com o registro de 273.210 partos em 2024, o que equivale a redução de 63,6% no período entre 2000 e 2024.
Estes dados são o resultado direto de políticas públicas, atuação das escolas. ampliação do acesso à informação e fortalecimento da atenção à saúde.
“Em 2000, um em cada quatro bebês nascidos no Brasil era filho de mãe adolescente. Em 2024, esse número caiu para um em cada nove bebês brasileiros”.

No entanto, apesar da queda consistente da gravidez na adolescência, importantes desafios persistem. Entre eles, a reincidência de gestações na adolescência, que revela falhas no acompanhamento pós-parto e no acesso contínuo aos métodos contraceptivos; o casamento/união precoce, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social; e a violência sexual, que segue sendo causa importante de gravidez nas meninas de 10 a 14 anos. Em 2024, 12 mil adolescentes de até 14 anos foram mães.
Do ponto de vista da saúde mental, é comum o relacionamento com o parceiro terminar, o que pode levar à jovem gestante ao isolamento social, ao afastamento dos amigos e a maior risco de ansiedade e depressão por vivenciar a maternidade solitária.
Portanto, além de informação, é fundamental fortalecer a proteção social, a educação sexual, a rede de atenção à saúde e aos direitos das adolescentes.
“A redução da gravidez na adolescência mostra que investir em educação, informação e saúde dá resultado — mas o desafio agora é garantir que essa queda chegue a todos as jovens, sem exceção.”
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A prevenção da gravidez na adolescência começa com informação de qualidade, acesso facilitado aos serviços de saúde e acompanhamento contínuo. O diálogo na família ajuda adolescentes a se protegerem e buscarem informações seguras. A educação sexual na escola desenvolve habilidades essenciais para a vida, além de atitudes e valores positivos em relação ao sexo.
Hoje, os adolescentes dispõem de vários métodos contraceptivos seguros e eficazes, que vão do preservativo e métodos hormonais (oral, injetável, vaginal ou em adesivo) até os contraceptivos de longa duração.
Entre esses, os contraceptivos reversíveis de longa duração (LARCs) — como o DIU de cobre, o DIU hormonal e o implante subdérmico — são considerados como a estratégia mais eficaz para adolescentes. Eles oferecem proteção prolongada (variando de 3 a 10 anos), são reversíveis e não dependem do uso diário ou da lembrança constante, o que reduz falhas.
Ampliar o acesso a esses métodos no Brasil é fundamental para acelerar a queda da gravidez na adolescência. Ainda temos taxas muito superiores às observadas em países desenvolvidos, o que mostra que há espaço para avançar, especialmente na atenção primária e nas regiões mais vulneráveis.
Ao mesmo tempo, é essencial reforçar que nenhum método hormonal protege contra infecções sexualmente transmissíveis. Por isso, a prevenção ideal combina um método contraceptivo eficaz com o uso do preservativo, que continua sendo indispensável. A isso, chamamos “dupla proteção”.
“A consulta médica é um espaço de orientação, prevenção e cuidado, mesmo antes do início da vida sexual”.Parte superior do formulário
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“Prevenir a gravidez na adolescência é investir em saúde,
educação e futuro.”
Importante!
Embora a gravidez na adolescência tenha tido uma redução superior a 60%, seus números ainda são altos. Em 2023, a taxa de partos na adolescência no Brasil foi de 42 a cada 1.000 adolescentes, enquanto em países desenvolvidos esse número varia entre 5 e 20 por 1.000.
É necessária a ampliação do acesso aos LARCs a nível nacional para baixar mais rapidamente as taxas de gravidez na adolescência. Vários estados e municípios brasileiros já disponibilizam os LARCs de forma gratuita. Ressaltamos a importância da ampliação da oferta a nível nacional, para baixar as taxas de gravidez na adolescência, de forma mais rápida.
“A gravidez na adolescência atualmente é mais prevalente entre adolescentes com menos acesso à informação, à saúde e à rede de apoio.”
Referências
Monteiro DLM, Monteiro IP, Bruno ZV, Raupp RM, Gonçalves FF, Ferreira GOF, Simões LF, Oliveira ARG. The 21st century adolescent mothers’ profile and adolescente pregnancy reduction in Brazil. Rev Assoc Med Bras. 2026, in press.
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Pietras J, et al. Adolescent pregnancy – medical, legal and social issues. Fetal Neonatal Med. 2024 ;37(1):2391490. doi: 10.1080/14767058.2024.2391490.
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Tebb KP, Brindis CD. Understanding the Psychological Impacts of Teenage Pregnancy through a Socio-ecological Framework and Life Course Approach. Semin Reprod Med. 2022; 40(1-02):107-115. doi: 10.1055/s-0041-1741518.