Reflexões do Mestre Hugo Miyahira

O Curso Medico da Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil no período 1963 a 1968.

Quando rememoramos fatos passados, podemos ter as lembranças coloridas pelo saudosismo, envolvidas em aura de irrealidade. Nossa memoria pode nos trair, bafejando com emoções presentes fatos ocorridos em uma época em que não éramos o que somos hoje, não julgaríamos com a experiência e maturidade de hoje e que, portanto, poderiam não refletir o conteúdo emocional do fato relembrado. Consciente disto, mesmo temendo trazer à luz espisodios acontecidos há mais de 60 anos, mal descritos ou sentidos de forma diferente por meus colegas de turma, rememoro o que foi a Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil (atual Faculdade de Medicina da UFRJ), o curso médico que cursei , as lembranças que conservei e a reflexão sobre os acontecimentos da época .

Estávamos felizes . Havíamos, em 1963 ingressado numa das mais tradicionais entidades de ensino do País: A gloriosa e de tantas tradições Faculdade Nacional de Medicina. O trote, aquela “gozação”, brincadeira infligida aos calouros pelos veteranos (cabeça raspada, corpo pintado de baton, roupas molhadas frequentes por bexigas d´água, aulas e professores falsos …). não foi difícil de suportar: era o preço que todos tradicionalmente pagavam ao ingressar naquela Instituição. Prolongou-se até o dia 13 de Maio de 1963, data comemorativa, simbólica da libertação dos “escravos”, isto é, dos calouros.

No primeiro ano, materias básicas: Anatomia descritiva, Biofisica, Bioquimica , Histologia e Embriologia. A dificuldade: colocar dentro da cabeça, um novo arsenal de vocábulos inteiramente novos aplicados à Anatomia . Alguns fáceis como o musculo esterno-cleido-occipito-mastoideo que em que seu próprio nome, já indicava sua localização e inserções; o que não ocorria com bíceps, tríceps, quadríceps, sartorio…Detalhes como Ângulo de Loui, tabaqueira anatômica, conduto de Steno obrigavam-nos a desenvolver métodos mneumônicos que nos ajudavam nas provas, até que tivessem sido “incorporados pela massa do sangue” e permanecessem para sempre em nossas cabeças. Miologia com suas fibras, nervos . Vasos( tronco braquio-cefálico, tronco celíaco, artéria gastroepiploica, epigástrica, hipogástrica foram mais fáceis de se incorporar ao conhecimento já que eram acessados nas práticas de emergência que passamos a frequentar nos estágios de finais de semana a partir do 3º ano.

Posteriormente Osteologia, Artrologia . Detalhes anatômicos: tabaqueira anatômica, gânglio de Mascagni ,conduto de Steno ; trompa de Falopio ou de Eustaquio. Nomes e mais nomes; livros, atlas, peças anatômicas, resumos, desenhos… As glândulas de Lieberkhun, o glomérulo do nefron, as células de Boll., o miocito e a neuroglia do Sistema Nervoso Central. A Embriologia a exigir muita imaginação para se compreender os desenhos dos cortes transversais, sagitais, latero-lateral anterior e posterior das imagens progressivas do embrião a partir da Mórula, Blástula, Blastocisto; do Disco Tri dérmico, do notocordio e das mudanças da vesícula vitelina e amniótica na medida em que a gravidez prosseguia.

O espanto: Como de um espermatozoide e um óvulo ocorria a formação de tantas células e tecidos diferentes? A diferenciação celular, ultrapassava misteriosamente a meiose e a mitose que conhecíamos. Métodos mneumônicos para decorar aquela série de vocábulos que, até a alguns meses eram-nos inteiramente desconhecidos. Matérias como Bioquímica era mais “compreensível” já que na realidade possuíamos base de química inorgânica e orgânica aplicáveis ao estudo do metabolismo dos hidratos de carbono, lipídios, protídeos , enzimas, mecanismo da bomba sódio-potássio, posteriormente complementados na Farmacologia do 3º. Ano com o Prof. Lauro Solero que exigia não confundir seu nome Solero com “só lero, lero”.

O Prof. Solero, taquipsiquico era impressionantemente agitado, vibrador com sua matéria (Farmacologia no 3º. Ano!) e com suas belas estagiárias acadêmicas da sua Cadeira .. Ficaram cravadas na memoria as ações nicotínicas da Acetil Colina na fibra preganglionar do sistema simpático e parassimpático; as ações muscarinicas na fibra pós ganglionar do sistema para simpático e a ação adrenérgica da adrenalina na fibra pós ganglionar do sistema simpático. Este professor era o Diretor da Faculdade quando em 1965, em plena agitação estudantil pós-golpe civil-militar de 1964 alunos em conflito com a Policia Militar correram adentrando à Faculdade na Urca .Ante a ameaça da PM invadir nossa FNM, com alunos vaiando os militares, fechando a porta principal da Av. Pasteur, o Prof Solero, idoso e com marcapasso cardíaco compareceu e exclamou, alto e bom som :” Policial só entra aqui se fizer vestibular!” . Foi delirantemente aplaudido À ocasião, era Presidente do CACC (Centro Acadêmico Carlos Chagas), o nosso colega de turma (3º ano!) Antônio Rafael da Silva , maranhense preocupado com as injustiças sociais, com as dificuldades de acesso à Universidade que observara em sua vida estudantil e que , “dava força” ao movimento rebelde estudantil participando do mesmo com discursos inflamados e olhos arregalados… A União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União Metropolitana de Estudante (UME) lideravam as passeatas e protestos nas Faculdades e ruas da cidade que “abriam os olhos” para a importância da participação popular na resolução de problemas do País. Distribuíam panfletos informando que a verba para nossa universidade com mais de 14.000 alunos era inferior àquela concedida para a alfafa de cavalos do exercito e que, de cada l000 alunos matriculados no primeiro grau, apenas 1 chegaria à Universidade . A conscientização politica também se fez através de cursos e discussões de problemas nacionais em Botafogo (ISEB ?) . Três colegas, ao final do primeiro ano (Roberto, Lincoln e Roberto) abandonaram o curso de medicina para fazerem sociologia. Lincoln que terminou seu curso de Sociologia e foi assassinado durante o regime militar em um episódio muito mal explicado de tiroteio na zona norte da cidade . Roberto que era tenente da Aeronáutica foi acusado de desviar armamento de seu quartel para a luta armada desertou da força aérea, fugindo para o exterior . Voltou no inicio dos anos 80 e é hoje psicólogo e escritor . O outro Roberto tornou-se professor da unicamp e não mais tive noticias.

Os anos 60 em que frequentamos o curso médico foram realmente anos de conscientização e questionadores. Quando, paulatinamente, eu, estudante vindo do interior, classe média, de colégio de salesianos, tomei consciência do significado social da profissão e li, pela primeira vez Jean Paul Sartre percebi que alguma coisa estava errada comigo e com a sociedade injusta, alienada, de “pequenos burgueses.”. (Refrão da época !).
Daí para a discussão de “O capital”, da “mais valia”, do “poder e direitos do trabalhador”, do “anticlericalismo”, da “Servidão voluntária” do “pequeno burguês alienado” e outros temas políticos foi um passo. Queria saber o que ocorrera em Cuba e o que se passava na cabeça do advogado Fidel Castro e do medico argentino Che Guevara envolvidos em uma revolução sangrenta, libertadora, com poucos recursos e que , afinal, estava vencendo e proporcionando à população mais humilde , educação, assistência à saúde e alimentação. Vladimir Palmeira com aquele sotaque nordestino foi um dos lideres estudantis naquela “Passeata dos 100 mil” em 1968 com a presença de Nara Leão, Dom Helder Câmara . Manifestação popular contra a
Ditadura que terminou com correria, cavalos e repressão policial no centro da cidade .

A insatisfação social, sobretudo , dos mais jovens, irrompia também na Europa com greves, passeatas , barricadas (Nanterre em 68; Cohn-Bendit em Paris ) e o apoio ativo de Jean Paul Sartre que naquele período havia sido premio Nobel de literatura e não havia comparecido à cerimonia para recebe-lo. Como era possível não ser a favor de mais justiça social, melhor distributividade de renda, melhores condições de ensino, mais incentivo e assistência à saúde. Como era possível não ser contra multinacionais que exploravam minérios de manganês, alumínio, estanho em concessões do Governo a preços vis ? Assim era natural e presumível ao empunhar estas bandeiras ser “de esquerda” . Infelizmente, flagramos anos depois e até recentemente, alguns lideres estudantis daquela época, envolvidos com a corrupção no governo.

Freud veio depois, sobretudo com os desafios de um colega de turma (Teophilo !) com a teoria da libido e os “recalques” que o ego/superego faziam ao id constituindo a personalidade e o inconsciente. Era-me ,à ocasião, difícil aceitar a Psicanálise como método cientifico de investigação do subconsciente a não ser pelos resultados positivos obtidos com o seu emprego. “Tudo se passa como se a explicação para tal comportamento estivesse na estória de Édipo e Jocasta”. Surpreendeu-me a descoberta do tamanho do inconsciente. “ Psicopatologia da vida cotidiana” , provavelmente à ocasião foi o livro que mais reli…

Impossível não vir à lembrança a imagem do Prof Lacaz, Titular de Bioquímica , explicando a estrutura do DNA com as esferas de madeira que representavam a estrutura do carbono com as suas quatro valências espacialmente configurando um tetraedro, ocasionalmente com dupla ligação formando estéreo isomeria nas posições “cis” e” trans”. A Física estudada no Vestibular, ajudava-nos a compreender a reatividade e condutividade neural, o potencial de ação de 15 milivolts, a corrente “saltatoria” no coração e também os peixes elétricos do Prof Carlos Chagas Filho, Titular de Biofísica e que assumiu pouco tempo depois, a direção da Academia de Ciências do Vaticano. O Prof Penna Franco da Biofisica nos deu as primeiras noções de radioatividade .

O Prof. Mauricio da Fisiologia , autor do livro de enzimologia , fazia cultivo pessoal da maconha para estudo de seus extratos em diferentes concentrações de álcool, obtidas a partir da fumaça da canabis sativa aspirada por seu “fumador”mecânico .Por outro lado dizia-me ter curiosidade em relação à Pineal que era extirpada de camundongos após o esforço extenuante de natação naquela tubo no laboratório de Fisiologia.
No segundo ano, Anatomia topográfica, Parasitologia, Fisiologia, Microbiologia com atividade prática. No anatômico, com dissecções de cadáveres ou estudo em peças previamente preparadas nossos olhos ardiam com o formol das peças e dos tanques de anatomia. Nesta disciplina ficou na memoria o Prof Cavalcante, seus jovens assistentes, Prof Aldrovando e sua jovem esposa a linda Profa. Talita, posteriormente brilhante Cirurgiã Plástica, responsável pela “repaginação” do “Rei” Roberto Carlos .

O Prof Barbosinha , formal, ministrando aula de terno e gravata, engraçado explicando o trajeto do espermatozoide até a fertilização do óvulo, desde que não fosse desviado para” la palmita de la mano” em caso de masturbação. Dizia admirar a beleza da secção transversal do fêmur que, por não ser completamente circular, tinha sua resistência aumentada, suportando com mais segurança o peso do corpo humano “assim como as pontes do aterro do Flamengo”. Finalizava : “A anatomia humana é perfeita!”
A Fisiologia Humana nos encantava: entender os mecanismos de “feed back” ou contra regulação dos hormônios, do funcionamento do aparelho respiratórios, circulatório, renal, do tubo gastrointestinal e órgãos anexos. Uma imensidão de matéria, que o livro do Guiton (autor) nos dava ao final de cada capitulo um pequeno exemplo de fisiopatologia aplicada. Uma das dificuldades desta matéria era procurar entender e ouvir o que o Prof Thales Martins dizia. Idoso, com voz baixa e escandida . Apesar do microfone pendurado em seu pescoço, bastava virar um pouco para os lados e já não o ouvíamos. Daí estar mais ligado nos tratados de fisiologia (Houssay e Guiton). Assim como os gregos, conhecer era compreender de onde vinha, o que originava o quadro clinico: a fisiopatologia e patologia estudada mais tarde nos daria as respostas.

Antes da reação de Wide-Guemzell (Teste imunológico para detectar o HCG e assim diagnosticar a gravidez ), se utilizava o teste de Galli Mainini que se valia da injeção da urina da gestante com HCG na bolsa ventral do sapo que lhe provocava espermatorreia em caso de gonadotrofina coriônica presente. O Prof Thales, com um professor argentino, foi responsável por um outro teste: injetar o HCG da urina das grávidas na veia da orelha de coelhas adultas e prepuberes provocava crescimento folicular ovariano e hemorragia local em caso de HCG presente. Assim, em ambos testes, o HCG se comportava como as gonadotropinas hipofisarias (FSH/LH) que havíamos estudado na fisiologia do eixo hipotálamo-hipófise-ovariano.

Agora não eram mais as lâminas de Histologia do Prof Bruninho da Histologia , mas sim as de bactérias, cocos por nos preparadas em aulas práticas de microbiologia do Professor Paulo de Góes (Microbiologia). Coloração das lâminas que fazíamos com a sequencia de agentes memorizadas pelo processo mneumonico “Vi Lulu Ali a Fumar”(Violeta de genciana, Lugol, Álcool, Fucsina).
Parasitologia era percebida como matéria chata, destituída de sentido, salvo quando nos era relatado em aula, quadros clínicos ocasionados pelos protozoários, helmintos. Micologia então, parecia algo tão distante mesmo quando se relatava os quadros de Blastomicose.

Afinal, o Curso Medico, fazia sentido. Embora não nos tivessem esclarecido no inicio do Curso . Havíamos estudado Anatomia, órgãos e sistemas e como estes eram formados e funcionavam .Quais eram suas diferentes células que se aglutinavam para formar diferentes tecidos com diferentes funções ou complementares para, ao se articularem entre si, tão harmonicamente, manter a vida do Homem.

Como o Homem era perfeito : Só de pensar no apetitoso file mignon que iria ingerir, já salivava, excretando a ptialina que contribuiria com parte de sua digestão. Daí ao suco gástrico, pepsina, acido clorídrico, barreira mucosa de proteção, suco pancreático, bile, movimentos peristálticos que fariam progredir o bolo alimentar eram passos concatenados que iriam permitir a absorção e a obtenção da energia necessária à preservação da vida. Após todo processo com a intervenção do hormônios, síntese de aminoacidos, os dejetos resultantes seriam eliminados, principalmente pela urina e fezes e também pela transpiração e respiração.. Estudáramos também, o que era e como funcionavam bactérias, fungos, vírus, parasitas. Agora, no inicio do 3º. Ano com a semiologia e clínica propedêutica, que sinais e sintomas se manifestavam nas enfermidades e como explora-los. O diagnostico se fazia inicialmente sindrômico (Síndrome= Estudo de sinais e sintomas comuns a varias enfermidades), depois etiologicamente (Etiologia = Estudo das causas originais das varias enfermidades: tumoral? Viral? Bacteriana? Degenerativa?…) que também deveria explicar como estes agentes interfiririam na fisiologia do enfermo(Diagnostico fisiopatológico).

A importância da anamnese cuidadosa , a observação dos sinais e sintomas que poderiam “aguçar” o exame físico facilitando a elaboração de hipótese diagnostica eram enfatizados na Clinica Médica. Como dizia Hipócrates: “Não há doenças e sim doentes”, saber como conduzir a relação medico-paciente fazia toda diferença no exercício da Medicina, enfatizava o Prof Danilo Perestrello.
Tinha que ver a teoria na prática, isto é, estagiar onde fosse possível e, de preferencia onde pudesse “meter a mão”. Desta forma passei todos os finais de semana, a partir do 3º ano da Faculdade nos plantões de Clinicas, Maternidades e, sobretudo Prontos-socorros da vida , aprendendo acima da minha insegurança, a exercitar e observar que na prática nem sempre se aplica a teoria encontrada nos livros.
Meus mestres foram ícones, modelos a seguir. Esta admiração, claro se estendeu a outros profissionais que conheci no curso de estágios em Maternidades e Prontos-socorros. Confesso que nesta atividade prática conheci também o exemplo negativo : Jamais ser médico como o doutor fulano.
Deveria optar por uma especialidade à qual me dedicar.

Esta deveria me permitir exercer Clinica, Cirurgia, Relação medico-paciente; ser resolutiva. Demais, me valer da Endocrinologia, Embriologia Foi assim que conheci clínicos e cirurgiões do Instituto de Ginecologia da UFRJ, onde fiz Residência Medica e após anos, Mestrado e Doutorado. Foi ali, artesanalmente, que fiz meu treinamento , estabeleci senso crítico e aprendi a dominar e exercer o poder que me era facultado no exercício da profissão.
Na Cadeira de Clinica Médica a possibilidade de nos aplicarmos na anamnese, descobrindo detalhes que nos possibilitava formular uma hipótese diagnostica nos encantava: a de hipertrofia da próstata nos “mijadores das bainhas das calça”; a de pancreatite na” dor em barra” no epigástrio ; a de ulcera péptica na “dor em queimação” do estômago, agravada no intervalo das refeições … O Exame Físico cuidadoso nos davam pistas concordante ou não com a Anamnese que poderia levar-nos a um diagnostico bastante preciso. O piparote positivo na ascite com a “caput medusae” Peri umbilical na cirrose hepática com consequente hipertensão porta, eventual hematêmese ou melena pelas varizes esofagianas aprimoravam a nossa imaginação e capacidade de formular hipóteses diagnosticas. A exoftalmia no hipertireoidismo, a facies de Lua Cheia na Sindrome de Cushing; a de “riso sardônico” no tétano; a lagoftalmia na paralisia facial periférica e outros sinais se encontravam no” Vieira Romeiro”, livro de Semiologia. A prescrição dos exames que confirmava nossa hipótese e de medicamentos que aliviavam os sintomas ou até curavam a enfermidade dava-nos a dimensão de um poder que estávamos adquirindo, de uma onipotência infantil…
Nenhum outro profissional tratava tão diretamente da vida como o médico… Vida esta que permitiria a realização do ser humano em qualquer área do conhecimento.

Sem vida não existiria esperança, amor, conquistas, progressos, ciência, … Cuidar e tentar preservar vidas, tarefa do médico era a mais nobre atividade humana!
Que bom ter tido professores exemplares como Clementino Fraga, Boavista Nery, Danilo Perestrello e tantos outros na Cadeira de Clinica Médica, que faziam-nos pensar para além da técnica Ali, aconselhado por um mestre , li “O discurso do Método” de Descartes, para aplica-lo à busca pela verdade diagnostica.
O Prof Berardinelli, clinico que, infelizmente não conheci afirmava: “Médicos não se formam, tornam-se eternos estudantes” e também “ Só se diagnostica o que se vê; só se vê, o que se procura; só se procura o que se sabe que se deve procurar ante aqueles sinais e sintomas; só se sabe o que procurar o que se estuda”. O Prof Jean Claude Nahoum ensinava que o diagnostico era um” constructo” mental e que este não estava no paciente e sim “dentro” da cabeça do médico que o atendia. Com os mesmos sinais e sintomas era possível “construir” diagnósticos diferentes e assim aquela enfermidade ser tratada de diferentes formas. Estaria eu vendo, detectando, percebendo, palpando o que me conduziria a um diagnóstico e tratamento correto ? William Osler, médico do século XIX dizia : Medicina, arte de incertezas, ciência de probabilidades.

A terapêutica era , como a verdade cientifica, aprimorável, requerendo continua atualização considerando sempre o binômio risco/beneficio. Comecei a duvidar muito de mim e também dos diagnósticos e tratamentos que instituía o que se acentuou muitos anos mais tarde quando surgiu a “Medicina baseada em evidencias” e os estudos de epidemiologia . A medicina não era tão “cientifica” nem os médicos tão onipotentes quanto imaginava . Numa formatura nos anos 70`s., ouvi o professor homenageado da turma, em um rasgo de bom humor aconselhar a seus formandos que ao exercer a profissão, deviam ter em mente que “somente 50% do que haviam aprendido era verdade e que os outros 50% era falso. O problema era que não se sabia qual 50% era verdadeiro”. Arrancou aplausos e risadas dos presentes ante esta verdade tão didaticamente exposta .

Hoje, observando todo o avanço das Ciências, aplicado à Medicina gerando uma propedêutica laboratorial e de imagens que nos permite visualizar áreas do cérebro quando o paciente está pensando, “matutando”, ou estressado, angustiado, apaixonado, deprimido… Isto parece-nos mágico: ver o cérebro funcionando ! Poder verificar que neurônios colinérgicos do Hipocampo afetados ou numericamente diminuídos, interfere na memoria como acontece na Doença de Alzheimer. Comprovar o que estudamos no paciente vivo : alterações nos núcleos da base do encéfalo pode resultar em Doença de Parkinson ou Síndrome extra piramidal é demais… Tomografias, Ressonância Magnética, Pet-Scan. Anti corpos monoclonais, Marcadores Tumorais são outros avanços surpreendentes que aprimoraram a propedêutica permitindo diagnósticos mais precoces dando às enfermidades melhor prognostico e, surpreendentemente, um afastamento maior do médico de seu paciente.

Um bom profissional deve estar atento . O paciente ainda necessita do seu médico de “ouvido afetuoso”, amigo, competente e conselhelheiro . Nos “CTIs” da vida , sente-se cada vez mais, a necessidade de um profissional “coordenador” do atendimento ao paciente para analisar, orientar e conversar com familiares, sobre o estado evolutivo do paciente, as incertezas, riscos e autorizações para condutas a serem tomadas e, com isto se evitar conflitos futuros entre familiares e a rede institucional.

Nossa velha classificação histopatológica dos tumores continua valendo desde que complementada por dados genéticos que, para um mesmo tipo de tumor, poderão indicar diferentes formas de terapia que fornecerão melhor prognostico.
Em tempos de Inteligência Artificial, de Medicina Baseada em Evidencias, vê-se o médico frequentemente orientado pela interface do computador orientado por protocolos frequentemente mutantes a indicar “melhores resultados” para aquela patologia.

O que foi, por muitos anos uma enfermidade essencialmente “psicossomática” como a úlcera péptica , tratável e curável com antiácidos, dietas, psicoterapia, drogas parassimpático líticas é hoje vista como enfermidade associada infecção pelo H Pilory, tratável e curada mais facilmente com antibióticos e omeprazol. Um avanço inegável, surpreendente.

Passado todo este tempo (56 anos de formado!), o que sinto: Uma gratidão imensa pela UFRJ, pelo meus mestres, pelos meus colegas de turma com quem compartilhei alegrias, tristezas, inseguranças e expectativas. .. Amigos fraternos de uma vida que vivenciaram, cada um à sua maneira aqueles mágicos anos 60` de tantas transformações politicas (A renuncia de Janio, o curto período de Parlamentarismo, a ascensão e queda do Presidente João Goulart, O golpe de 64, o AI 5, o Governo Militar., o movimento estudantil . . ), Sociais (o Womens Lib, o movimento Gay, o surgimento da pilula …), Guerras ( “Guerra Fria”, do Vietnan, dos 7 dias de Israel ); a crise dos misseis soviéticos em Cuba), o nascimento dos Beatles , a expansão da bossa nova, dos Festivais de Musica Popular Brasileira com a revelação de Chico Buarque, Caetano Veloso, Bethania, Nara Leão , Simonal… Lembrei-me de algo: Herve´, fraterno colega de turma, exímio pianista, participou de um destes Festivais com composição sua… O nascimento da “pílula” dissociou, pela primeira vez a reprodução do sexo, possibilitando a liberação sexual feminina , escandalizando a moral hipócrita, vigente até então. “É proibido proibir”; “Não confie em ninguém com mais de 30 anos”;” Faça amor, não faça a guerra” eram mantras que sugeriam novos comportamentos. Experiências psicodélicas com LSD sugeridas por astros pops da época e intelectuais, obrigaram-me a ler Aldous Huxley (“As portas da percepção”) e a desejar experimentar a agudização da percepção dos sentidos proporcionada pelo ácido lisérgico, que me permitiria experimentar um mundo diferente. Felizmente (ou infelizmente ?) não consegui ter acesso ao acido lisérgico e, assim não fiz esta “viagem” colorida ; permaneci “careta”.

Passado todo este tempo , percebo agora uma medicina muito técnica e desenvolvida. Graças ao avanço da ciência incorporada aos exames complementares, a arte semiótica pessoal que admirávamos em nossos mestres cedeu lugar a maquinas que realizam uma serie de exames complementares que permite o diagnostico e em alguns casos, transforma o médico em interface do computador. Não mais é preciso sentir à palpação o frêmito toraco-vocal ou o pulso em “martelo d’água na insuficiência aórtica; ouvir à ausculta cardíaca, o estalido de abertura da mitral, o sopro sistólico da estenose mitral ou diastólico na insuficiência aórtica; os estertores crepitantes , subcrepitante ou em maré montante . Estes sinais obtidos pelo médico ao examinar seu paciente são hoje substituídos pelo exames complementares e algoritmos que ditam também a terapêutica.

Houve avanços inegáveis no tratamento das neoplasias. O exame “preventivo” tornou-se uma realidade; não apenas de diagnostico precoce, pré-clínico. A Genética aplicada à Reprodução, em algum grau, está nos orientando quanto a riscos e possibilidades terapêutica A cirurgia robótica e as endoscópicas propiciaram menos agressão ao corpo do paciente, menos invasão. A propedêutica laboratorial e de imagens dispensou algumas habilidades dos médicos de outrora e, fantasticamente possibilitou-nos “ver”, em tempo real o cérebro funcionando e a área afetada “não-funcionante” (hipocampo, por exemplo) propiciando deduções sobre enfermidades tão importantes quanto o Alzheimer e distúrbios de memoria, de comportamento. A Neurociencia avançou e , finalmente temos algo a mais além de Freud na Psiquiatria e Psicanálise. As descobertas da terapêutica mudaram a estória natural de algumas enfermidades com drogas imunológicas alvo-especificas. Jamais imaginaria tratar ulcera péptica com antibiótico e omeprazol, curando-a ! Deixou de ser uma enfermidade fundamentalmente psico-somática, embora com aspectos emocionais , para se tornar uma enfermidade da mucosa gástrica ou duodenal “atacada” pelo H Pilory, tratável com antibióticos.

A Filosofia (Poppe !), a Epidemiologia e a Medicina Baseada em Evidencias dos anos 90` mostrou-nos que” a verdade é aprimorável” e que, como dizia Berardinelli, continuaríamos “eternos estudantes” em busca de atualização constante das verdade apreendidas naqueles anos 60 . Apesar das maquinas, da robótica, da IA, a palavra, o olhar e a comunicação pessoal, com sensibilidade, clareza e humanidade permanece como qualidades essenciais àqueles que tratam e atendem pessoas.

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